A escoliose idiopática do adolescente é a deformidade da coluna mais comum na infância e adolescência, afetando de 1 a 3% dos jovens entre 10 e 16 anos. Em alguns casos, quando a curvatura é mais acentuada, o tratamento cirúrgico chamado fusão posterior da coluna é indicado. Apesar de ser um procedimento frequente, essa cirurgia está associada a dor intensa no pós-operatório, o que torna o controle da dor um dos maiores desafios do tratamento.
Um artigo científico publicado em 2020 na revista Pediatric Drugs, intitulado “Postoperative Pain Management in Pediatric Spinal Fusion Surgery for Idiopathic Scoliosis”, analisou as evidências científicas mais atuais sobre como a dor tem sido tratada após esse tipo de cirurgia em crianças e adolescentes .
Por que o controle da dor é tão importante?
Segundo os autores do artigo, quando a dor não é bem controlada após a cirurgia, a recuperação pode ser prejudicada. A criança ou adolescente pode demorar mais para se levantar, andar, se alimentar e retomar atividades básicas. Além disso, a dor mal controlada pode gerar insatisfação da família e aumentar o risco de a dor se tornar crônica, ou seja, persistir por meses após a cirurgia .
O papel dos opioides no tratamento da dor
Tradicionalmente, os opioides (medicamentos fortes para dor) são a base do tratamento após a cirurgia de escoliose. Eles são eficazes, mas podem causar efeitos colaterais comuns, como náuseas, coceira, constipação e, mais raramente, problemas respiratórios. O artigo destaca que muitos desses efeitos estão relacionados à quantidade total de opioides utilizada .
Além disso, o uso prolongado desses medicamentos pode levar à tolerância (quando o corpo passa a precisar de doses maiores) e até ao aumento da sensibilidade à dor, o que pode atrasar a recuperação.
O que é analgesia multimodal?
Para reduzir a necessidade de opioides, o artigo destaca a importância da analgesia multimodal, uma estratégia que combina diferentes tipos de medicamentos e técnicas para controlar a dor. Essa abordagem faz parte dos chamados protocolos de recuperação acelerada, que têm como objetivo ajudar o paciente a se recuperar mais rápido e com menos complicações .
A analgesia multimodal pode incluir:
Opioides em doses menores e por diferentes vias de administração
Anti-inflamatórios não esteroides, como o cetorolaco, em doses seguras
Paracetamol
Outras medicações auxiliares, avaliadas caso a caso
Segundo os autores, essa combinação pode reduzir os efeitos colaterais dos opioides e favorecer uma recuperação mais rápida, desde que os riscos e benefícios de cada medicamento sejam cuidadosamente avaliados .
O que já tem boa evidência científica?
O artigo aponta que há boas evidências para o uso seguro de:
Opioides administrados próximos à medula em doses adequadas
Doses baixas de anti-inflamatórios
Metadona como parte do controle da dor após a cirurgia
Por outro lado, os autores explicam que ainda não há evidência científica suficiente para recomendar rotineiramente algumas medicações, como certos anticonvulsivantes usados para dor ou anestésicos intravenosos específicos .
O que ainda precisa ser estudado?
Apesar dos avanços, o artigo ressalta que ainda existem lacunas importantes no conhecimento. São necessários mais estudos para definir:
As melhores combinações e doses de medicamentos em crianças
Estratégias para evitar dor crônica após a cirurgia
Formas mais eficazes de reduzir o uso prolongado de opioides .
Conclusão
O artigo “Postoperative Pain Management in Pediatric Spinal Fusion Surgery for Idiopathic Scoliosis”, publicado em 2020 na revista Pediatric Drugs, mostra que o controle da dor após a cirurgia de escoliose evoluiu bastante, mas ainda exige atenção individualizada. A combinação de diferentes estratégias para alívio da dor, com foco na redução de opioides e na recuperação mais rápida, é hoje um dos caminhos mais promissores para melhorar a experiência e os resultados de crianças e adolescentes submetidos a esse procedimento .